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Alguém que ama a vida e odeia as injustiças

09 outubro, 2010

A Chave

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A Chave

Trac-trac-trac- Três voltas. Três gestos. Três segundos. Três tempos. Um suspiro.

A mãe desce lenta, o corpo afasta-se da porta. Um passo atrás. Um engolir de saliva. Um soluço. Um gemido. Um gesto. Uma decisão.

Recua ao mesmo tempo que soluça. As costas da mão servem de lenço ao ranho que cai. Os olhos colam-se. Esfrega-os. Tinta preta. O indicador direito percorre a face. Tinge-se de negro. Negro e ranho. E lágrimas.

A chave olha-a. Um passo em frente, outro e mais outro. A mão detém-se num gesto contido. Não, não vai abrir. Grita, soluçando. Depois escancara a boca e grita mais e mais. A chave treme. Ela treme. O silêncio treme.

Sobe as escadas, entra no quarto, olha a cama e pega nas almofadas atirando-as pelo ar. Com força, com raiva. Depois joga-se no cadeirão. Dobra-se sobre si e soluça mais e mais. Até ficar sem ar. Deixa-se estar naquele desventrar de si. O dia partiu. Está escuro. Escuro lá fora e negro cá dentro, sem luz.

Levanta-se. Ajeita o cabelo. Riscos negros e secos desenham-lhe a amargura. Lava o rosto abundantemente. A água gelada mitiga-lhe a dor, porque a faz tremer. Olha-se ao espelho. Sente-se profundamente infeliz. Injustiçada. Maltratada. Odeia. Odeia-o e odeia-se. Um ódio que sobe das entranhas sem forma. Um pedaço de sentir feito de algodão amargo. Esvai-se ao toque. Logo que respira a saliva da sua tristeza.

Pensa. Pensa como é infeliz. Sente. Sente-se injustiçada. Sente-se mal amada. Ela. Ela…que se preteriu…que se preteriu…que lhe deu tudo… tudo…e agora…isto…

Soluça. Soluça porque só assim se sabe ouvir.

Do outro lado da porta, onde a chave não rodou, ele abana a cabeça. Mais uma cena. Mais uma. Mais uma de entre tantas. Difícil viver com ela. Difícil. Ele não é ela e, ela não é ele. São dois. Não são um. Tanto drama, tanta fúria.

Gosta dela. Ama-a porque é hábito. A vida é um hábito que se deixa escorrer pelo corpo. Ele tem hábitos que ela não gosta. Ele tem desejos que ela não sente, ele tem espaços que ela não preenche. Ela vive mesmo ao lado dos interstícios dele. Não se encontram mas vivem juntos, às vezes. Coisas da vida. Quando se cruzam, ocasinalmente, são felizes. Mas só às vezes. Mas não é amor, é hábito.

Olha a porta do lado de fora. Encolhe o pescoço no movimento redondo dos ombros e desce os degraus da escada. Está sereno, sem estar apaziguado.

Abre a porta do carro. A perna esquerda ainda entra. Pára. Olha em redor. Passa as mãos pelo cabelo num gesto maquinal. . Decide-se. Tira a perna e fecha a porta. Joga as chaves dentro do bolso do casaco. Levanta-lhe a gola e decide-se. Vai caminhar.

É noite. Noite húmida. Daquelas sem luar. Escura. Cá fora está escuro. Sente-se bem. Gosta do negro. Espicaça-lhe os sentidos. O instinto de sobrevivência, o alerta animal. É o Homem.

Caminha, não estiola tempo em análises e muito menos em mortificações. Tudo vai passar, como das outras vezes. Ele sabe. Tem que ser paciente. É assim.

Não vai pedir desculpa. Aconteceu.

Caminha. A noite acompanha-o. Murmura:

-Ainda é cedo!

A chave rodou na fechadura. Trac-trac-trac-. Em sentido contrário. Num gesto breve e leve. Uns passos rápidos e um afastar quase em bicos de pés. Um breve restolhar escadas acima. Um a mirada no relógio. São duas da manhã. O lençol abre-se ávido de calor numa cama de dois.

Ela deita-se e enrola-se nos cobertores. Murmura:

-Já é de madrugada!


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